O antifeminismo é um projeto

O bolsonarismo não precisa acabar com o voto feminino. Mas se quiser, pode. Eles têm a maioria do Congresso e, se eleito, Flávio Bolsonaro poderá indicar quatro ministros para o STF.
Mas eles não precisam acabar com os direitos das mulheres. Basta fazer com que elas passem a duvidar da própria voz, terceirizando suas opções políticas para seus pais ou maridos.
Por isso, o jornalista de extrema-direita diz que as mulheres não sabem votar: porque as ideias consideradas progressistas são aprovadas pelo eleitorado feminino. Diante disso, a estratégia deles foi então dizer "qual tipo" de mulher deveria votar e como elas devem ser representadas.
É assim que a candidata antifeminista, recém-eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo, recebe tanta atenção. Parece contraditório, chocante, mas é projeto: as mulheres são as responsáveis pela maior parte do serviço doméstico e do que chamamos de “economia do cuidado”; são elas que cuidam dos filhos doentes, da mãe e da sogra idosa, das crianças autistas.
Também são elas que se dedicam para que seus filhos e filhas participem de datas como o "dia da Mochila Maluca". E também são elas que resolvem a maior parte dos problemas que surgem nos grupos de mães da escola: do presente para o aniversário do coleguinha até a reunião com a professora que precisa avisar que a criançada tá com piolho.
Isso acaba estendendo a jornada de trabalho das mulheres. Assim, também são elas as mais impactadas pela jornada 6x1. Porque tudo isso é trabalho, mas não é remunerado, então não entra no PIB.

Agora, imagina se alguém tivesse que pagar por isso?
E com as propostas de cortes em benefícios, aposentadorias…são as mulheres que ficam ainda mais sobrecarregadas. Por isso, é preciso convencê-las a realizar esse trabalho de maneira gratuita.
“Mulher sabe cuidar”, dizem aqueles que defendem a família tradicional formada pelo pai provedor e a esposa virtuosa que trabalha para a família. Mas dizem isso enquanto frequentam orgias e são flagrados traindo suas esposas.
O bolsonarismo não odeia o feminismo porque “deturpa os valores conservadores”. Eles odeiam o feminismo porque é a luta organizada das mulheres contra a exploração, contra o projeto de transformar direitos em mercadorias e fazer negócios no mercado privado na forma de lobby ou com empresas próprias.
Porque é assim que o “Estado Mínimo” vira lucro máximo. É assim que convencem milhões de mulheres que o “amor não tem preço”, então elas podem cozinhar, lavar, e cuidar de graça.
O problema é que esse discurso custa muito caro.
No país do Vorcaro, o feminismo não é mais necessário porque as mulheres podem ser o que quiserem, desde que sejam putas, cornas ou escravas domésticas.





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