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O antifeminismo é um projeto

Foto do escritor: Luara Ramos
Luara Ramos
há 6 horas
2 min de leitura

O bolsonarismo não precisa acabar com o voto feminino. Mas se quiser, pode. Eles têm a maioria do Congresso e, se eleito, Flávio Bolsonaro poderá indicar quatro ministros para o STF.


Mas eles não precisam acabar com os direitos das mulheres. Basta fazer com que elas passem a duvidar da própria voz, terceirizando suas opções políticas para seus pais ou maridos.


Por isso, o jornalista de extrema-direita diz que as mulheres não sabem votar: porque as ideias consideradas progressistas são aprovadas pelo eleitorado feminino. Diante disso, a estratégia deles foi então dizer "qual tipo" de mulher deveria votar e como elas devem ser representadas.


É assim que a candidata antifeminista, recém-eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo, recebe tanta atenção. Parece contraditório, chocante, mas é projeto: as mulheres são as responsáveis pela maior parte do serviço doméstico e do que chamamos de “economia do cuidado”; são elas que cuidam dos filhos doentes, da mãe e da sogra idosa, das crianças autistas.


Também são elas que se dedicam para que seus filhos e filhas participem de datas como o "dia da Mochila Maluca". E também são elas que resolvem a maior parte dos problemas que surgem nos grupos de mães da escola: do presente para o aniversário do coleguinha até a reunião com a professora que precisa avisar que a criançada tá com piolho.


Isso acaba estendendo a jornada de trabalho das mulheres. Assim, também são elas as mais impactadas pela jornada 6x1. Porque tudo isso é trabalho, mas não é remunerado, então não entra no PIB.

Mulheres conversando na rua enquanto fazem compra
Mulheres são as responsáveis pela maior parte do serviço doméstico e do que chamamos de “Economia do Cuidado": quem paga por isso? (Crédito: Brasil com S)

Agora, imagina se alguém tivesse que pagar por isso?


E com as propostas de cortes em benefícios, aposentadorias…são as mulheres que ficam ainda mais sobrecarregadas. Por isso, é preciso convencê-las a realizar esse trabalho de maneira gratuita.


“Mulher sabe cuidar”, dizem aqueles que defendem a família tradicional formada pelo pai provedor e a esposa virtuosa que trabalha para a família. Mas dizem isso enquanto frequentam orgias e são flagrados traindo suas esposas.


O bolsonarismo não odeia o feminismo porque “deturpa os valores conservadores”. Eles odeiam o feminismo porque é a luta organizada das mulheres contra a exploração, contra o projeto de transformar direitos em mercadorias e fazer negócios no mercado privado na forma de lobby ou com empresas próprias.

Porque é assim que o “Estado Mínimo” vira lucro máximo. É assim que convencem milhões de mulheres que o “amor não tem preço”, então elas podem cozinhar, lavar, e cuidar de graça.


O problema é que esse discurso custa muito caro.


No país do Vorcaro, o feminismo não é mais necessário porque as mulheres podem ser o que quiserem, desde que sejam putas, cornas ou escravas domésticas.


Duas vidas, um sistema: a diferença entre homens e mulheres. (Arte de Beatriz Ramos)
Duas vidas, um sistema: a diferença entre homens e mulheres. (Arte de Beatriz Ramos)


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